JEANNE DIELMAN, 23, QUAID DU COMMERCE 1080, BRUXELLES (Chantal Akerman 1975)


Bom dia. Vejo você na próxima semana. Pare de ler e coma. – Está bom?
– Sim, está. Coloquei menos água desta vez.
Por isso está mais saboroso. Está comendo muito pouco.
Parece que não está bem. – Quer uma fruta?
– Não. Chegou uma carta da
tia Fernande, do Canadá. Vou ler para você. Querida Jeanne, querido Sylvain. Desculpem-me por não ter
respondido antes. Sempre penso em vocês e na Bélgica. As aulas já começaram e
estou muito ocupada. O tempo voa. De repente, já é inverno
outra vez. Tem nevado muito e
quase não saio. As crianças não puderam ir à escola
pois as estradas estavam bloqueadas. Fico em casa o tempo todo. Sem carro,
os pés se enterram na neve. Jack está me ensinando a dirigir. Preciso
aprender pois tudo aqui é muito longe. Diz ele que tenho que me adaptar
aos costumes deste país. Aqui todas as mulheres dirigem,
mas acho que nunca aprenderei. Agora, todos os carros estão
cobertos de neve.
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As crianças são muito fortes. Canadenses de verdade. Jane está bem alta,
mas é muito elegante. Espero que possam vê-los
neste verão. Temos um quarto de hóspedes e
Sylvain pode ficar lá com o sobrinho. Você precisa encontrar alguém.
Jack acha que deve se casar outra vez. É muito bonita para ficar sozinha. George morreu há seis anos.
Você é muito corajosa. Só diz que quer ficar sozinha
porque não gosta de se queixar. Às vezes choro quando
penso em você. Jack deve estar chegando
e tenho que por a mesa. Beijos para vocês dois. Com carinho, da irmã e
tia Fernande. P.S.: Mês passado enviei um
presente para Jeanne, de navio. O que será esse presente? Quer ir? “O Inimigo” de Charles Baudelaire. Minha juventude não passou de
negras tormentas… às vezes, interrompidas por
um sol brilhante. As chuvas e os raios eram
tão violentos… que raramente se colhia uma
fruta em meu jardim. Agora, estou no outono de
minha vida… e tudo que preciso é de … tudo que preciso é de
uma pá e um ancinho… para mais uma vez juntar a
terra … onde a água abriu grandes túmulos. Mais uma vez. “O Inimigo” de Charles Baudelaire. Minha juventude não passou de
negras tormentas… às vezes, interrompidas por
um sol brilhante. Os raios… os raios e as chuvas
foram tão violentos… que raramente se colhia uma
fruta em meu jardim. Agora, estou no outono de
minha vida… e tudo que preciso é de
uma pá e um ancinho… para mais uma vez juntar a
terra … onde a água abriu grandes túmulos. Você está falando com sotaque. Sim. Quase já pronuncio o “R”
como o Jan. E na escola, não zombam
mais de mim. Talvez, mas ninguém o obrigou
a ir para uma Escola Flamenga. Sim… seu amigo. Pode pronunciar o “R” como eu. Venha aqui. – Prefere maior, não é?
– Prefiro. Estou quase sem lã. – Hoje é terça-feira?
– Sim. Sempre lendo.
Como seu pai. Você sempre diz isto.
Como conheceu meu pai? – Por que me pergunta isso agora?
– Aqui diz “milagre”. Tia Fernande sempre disse que
foi um milagre ter conhecido Jack. Sim, ele veio nos libertar em 1944. Ele nos deu chiclete e chocolate
e nós demos flores a ele. Conheci seu pai depois que
os americanos se foram. Eu vivia com minhas tias.
Meus pais tinham falecido. Um sábado, fui ao bosque
com uma amiga. Não me recordo como estava o tempo. Minha amiga o conhecia.
Você a viu em fotografias. Depois, começamos a sair juntos.
Eu era caixa. Não ganhava muito e minhas tias
não eram muito simpáticas. Não sabia se queria me casar,
mas era o que as pessoas faziam. Foi o que fiz. Minhas tias diziam: “Ele é decente
e tem dinheiro. Fará você feliz”. Mas eu ainda tinha dúvidas. Na verdade, queria ter minha
própria casa e um filho. De repente, o negócio dele faliu
e logo, nos casamos. Isso aconteceu depois da guerra. Minhas tias diziam que como eu era
bonita, poderia conseguir algo melhor. Que eu poderia ter encontrado alguém
que me desse uma vida boa. Diziam que ele era feio, além de outras
coisas, mas eu não dava ouvidos. Você ainda queria dormir com ele,
mesmo sendo ele feio? Feio ou não, isso não importava. E dormir com ele era só um detalhe. Eu tinha você.
Ele não era tão feio assim. Gostaria de se casar novamente? Não, acostumar com
uma pessoa outra vez … Com alguém que você ame. Bom… Se eu fosse mulher… não seria capaz de dormir
com alguém a quem não amasse. Você não sabe,
não é mulher. – Apago a luz?
– Sim, tudo bem. Durma bem. FIM DO PRIMEIRO DIA. Lavou as mãos? Posso levar mais hoje? – Aqui está.
– Obrigada. – Obrigado, senhora.
– Obrigada, senhor. -Olá, senhora. Tudo bem?
-Sim. Poderia consertar estes sapatos
até amanhã? Meu filho está usando outros. Os velhos
tem buracos e entra água quando chove. Darei uma olhada. O salto também, certo? – Amanhã às quatro. Está bem assim?
– Sim, está. – Seu filho está bem?
– Sim, muito bem. Ele a faz feliz, não?
É obediente? Isso é bom. – Estaria perdida sem ele.
– Pode vir pegá-los às quatro. – Faz tempo que não a vejo.
– Bom dia. Virá tomar café esta tarde? Esta tarde não.
Talvez na próxima semana. Então, até logo. – Vamos.
– Estava comendo? O que tem para hoje? Às quartas-feiras, escalope,
ervilhas e cenouras. Não consegui pensar em nada hoje. Ficaria bem apenas com um sanduíche. Depois que comecei a fumar,
perdi o apetite. Mas as crianças precisam de carne. Fui comprar, mas havia fila
no açougue. Se tivesse ido mais cedo ou mais tarde,
não teria que entrar na fila. Mesmo assim, pude escutar o que os
outros pediam e decidir o que comprar. No entanto, ficou mais difícil. Uma mulher pediu carne de porco
e carne bovina picada e pensei… “vai fazer bolo de carne.
Fiz ontem, com molho de maçã”. Aí, pensei: “nada disso, sua boba.
Vai fazer almôndegas”. Foi ridículo. Quando chegou minha vez,
ainda não havia decidido. Acabei pedindo o mesmo que a mulher
que estava na minha frente. Um quilo de vitela por 300 francos. É o bastante para dois dias,
e nenhum de nós gosta de vitela. As crianças não vão comer.
E a vitela não tem vitaminas. Também não se pode comer peixe.
Pode matar. Bom seria se gostassem da
comida da escola. Meu marido acha a comida ruim
e que eles ainda são muito pequenos. Se dependesse de mim… Ele ficará fora durante toda
a semana que vem. Sentirei sua falta. Vou para a casa de minha mãe.
As crianças terão que comer na escola. Vão criar o hábito de comer
com outras crianças. É melhor. E meu marido não poderá se queixar… – Seu filho come na escola?
– Sim, não é exigente. – Meu marido também não era exigente.
– Nem o meu, mas as crianças… Isto é inevitável. A gente acaba se acostumando.
Tenho que ir. – Até logo.
– Até logo. Por favor… Tem um novelo de lã nesta cor? Acho aquele. Sim, é este. Este mesmo. Obrigada. Até logo, senhora. Bom dia. Até quinta-feira. Senhora. Um saco de batatas, por favor. Mamãe. – Está despenteada.
– Cozinhei demais as batatas. Pare de ler e coma. Terá que esperar um pouco. Coloquei a carne e os legumes
em fogo brando. Um pouco mais. Não fiz purê.
Farei amanhã. Deve estar faminto.
Estava nadando. – Não fui. Jan também não foi.
– Por que não? Jan não foi para ficar comigo.
Disse a ele que estava com dor de cabeça. Nós ficamos na enfermaria.
Hoje tivemos prova de natação. Não gosto que faça essas coisas. Tenho que responder a sua tia Fernande. As batatas devem estar prontas. – Não vamos ligar o rádio hoje?
– Sim, vamos. Não consegue escrever?
É por causa do rádio? Sim, talvez seja por causa
da cantora… Não. Não sei o que responder. Não podemos sair esta noite?
Jantamos muito tarde. Claro. Se quiser, pode trazer
Jan com você amanhã. Aposto que ele está apaixonado
pela enfermeira. Hoje não pegou o bonde comigo.
Tinha coisas para fazer. Quando passei pela escola,
ele ainda estava lá. Ele tem um livro que
explica muitas coisas. A duração do clímax, o orgasmo… Disse que estamos na idade de
nos interessarmos pelas mulheres. Ele não quer uma garota. O membro do homem é uma espada.
Tem que penetrar até o fundo. Eu disse: “Uma espada machuca”.
Ele disse: “Isso mesmo.” É como fogo.
Que prazer há nisso? Não deveria falar essas coisas. Foi papai que me contou tudo quando
eu tinha dez anos. Perguntei a ele: fez isso com mamãe? Odiava-o por isso.
Queria morrer. Achava que sua morte
era a vingança de Deus. Não acredito mais em Deus. Ele disse que não foi apenas para me gerar. Então fingia que tinha pesadelos e
chamava você. Assim ele não poderia… penetrá-la. Não era necessário. É tarde. Vou apagar a luz. Está bem. – Mamãe?
– É tarde. Durma bem. FIM DO SEGUNDO DIA – Já lavou as mãos?
– Já. Seu botão. Sylvain… – Já foram?
– Está vazio? Metade de um pão. – Tem uma sacola?
– Sim. – A sacola?
– Pegarei uma nova. Aqui está. 10,50 francos. Obrigada. Aqui está. – Obrigada.
– Até logo, senhora. – Bom dia.
– Bom dia. Obrigado. – Obrigado. Até logo.
– Até logo. Senhorita? Tem um botão como este? Já procurei. – Talvez este?
– Não. – Não são iguais.
– Então não tenho. Sinto muito. Até logo. São difíceis de encontrar. Minha
irmã Fernande mandou do Canadá. Este, ela mandou há alguns anos.
Sylvain começou a usar recentemente. Ficava grande para ele. Tinha seis anos quando minha irmã
ficou três meses aqui. Sylvain dormia no quarto comigo e
meu marido. Ele ainda estava vivo … e ela dormia no sofá com
Jonathan. Ela o chama de John. John tinha 5 anos, mas era
mais alto e mais forte que Sylvain. Se peço a ela para mandar esse botão,
pode ser que já tenha saído de linha. Dizem que a Europa está cinco anos
atrasada, em relação aos Estados Unidos. Por isso ainda tenho esperança. Não encontrará um como este.
É melhor trocar todos os botões. O casaco ficará novo.
É como cortar o cabelo. Nunca vi um botão assim. Talvez consiga encontrar na praça. – Senhora?
– Gisele não está? – Sai do trabalho às quatro.
– Então, quero apenas um café. Aqui está, senhora.

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